Hoje, mais precisamente às 16h, no Fórum de Justiça de Juiz de Fora, notei que magistrados também podem sofrer de certo grau de alienação marxista. Conclui isso após ter recebido um abraço camarada de um ex-professor de faculdade que também é juiz criminal.
Quem advoga em Juiz de Fora bem sabe que, ao entrar no Fórum Benjamin Colucci pela porta principal, o setor de distribuição (documentos para iniciar novos processos) fica à esquerda e o de protocolo (documentos para processos já em curso, entre outros), à direita.
Minha surpresa foi que, terminando de distribuir uma ação, surgiu, do meu lado esquerdo, um senhor apressado, que perguntava, com ligeireza, onde ficava o setor de protocolo.
Ao olhar de banda, vi que esse senhor trajava terno e gravata. Logo, imaginei que se tratava de um colega advogado de outra comarca.
Porém, virando-me para acudi-lo, pude olhar uma segunda vez. De repente, notei quem realmente era esse senhor!
Tratava-se de meu antigo professor de Processo Penal da Universidade Federal de Juiz de Fora, que - vejam a ironia - é magistrado oficiante naquele mesmo Fórum!!!
Logo, saiu da minha boca a indagação: "juiz 'fazendo protocolo'?!". A resposta do meu professor foi tão rápida e clara quanta a pergunta que ele havia feito antes, com o acréscimo de um sorriso desconcertado e brincalhão.
Depois de ouvi-lo, eu compreendi como ele chegara a tanto.
E, logo em seguida, ele se dirigiu ao recém-descoberto o setor de protocolo.
Tudo resolvido.
Entretanto, o ditado ainda vale: "explica, mas, não justifica".
Raciocinei cá com meus botões: "como um juiz não saberia onde se protocolavam petições e quem as recebia?".
Milhares foram as vezes em que petições foram dirigidas ao gabinete do meu professor por aquele meio.
Tendo entrado tantas vezes no Fórum para trabalhar, será que ele nunca teve a curiosidade de saber como essas coisas funcionavam?
Eu pasmei quando soube que ele desconhecia como se fazia isso.
Ri para dentro, virei para a atendente da distribuição e disse brincando: "o trabalhador que aperta um parafuso não sabe o que há na linha de montagem antes dele". Ela, compenetrada no trabalho, redarguiu compreensiva: "divisão de tarefas". E me entregou o comprovante de distribuição.
Fui embora.
No fim do dia, voltei para casa feliz por existir um juiz que "fazia protocolo" no próprio Fórum que abrigava seu gabinete.
Depois de repensar o acontecido, fiquei ainda mais feliz por ter notado o olhar sincero daquele juiz em busca de auxílio e de quem o pudesse dar.
Ah, se alguns soubessem que "diante da honra vai a humildade"! Ah, se vissem os que não vivem assim que saturam os outros com infelicidade e que sua presença é certeza de desagrado! Quão diferente seria!
De certo, tinha que se tratar de um professor para que lhe ocorresse um iniciativa como essa. Afinal, é costume entre os que ensinam ter a mente arejada. Alienado da produção ele não é: conheceu outra etapa em direção ao produto final, que é a sentença.
Estou convicto que esse juiz administrará bem sua unidade jurisdicional.
Mas, quanto tempo vou ter de esperar para presenciar isso de novo com outros magistrados? Até quando durará a alienação?
Quero contar, além dessa história, outras parecidas com ela.
Oxalá isso acontecesse mais vezes! Advogar seria menos traumático e eu poderia construir uma melhor imagem dos juízes para meus clientes, já insatisfeitos com o Judiciário.
A espera trará sua recompensa e o tempo dará seu fruto.