Por Júlio César Cerdeira Ferreira
O acontecimento não é recente. Deu-se por ocasião da discussão da constitucionalidade da lei de pesquisas com células-tronco de embriões humanos.O Ministro Celso de Mello proferiu voto no qual aduziu:
"Não vamos incidir no mesmo erro do tribunal do Santo Ofício, que constrangeu Galileu Galilei, que tinha informações cientificamente corretas, mas incompatíveis com a Bíblia."
Erro crasso!
Para cometer um deslize dessa monta no bojo de uma discussão tão relevante, para a qual estava voltada a atenção de todo o País, o magistrado referido deve ser um homem pouco informado. Talvez nunca tenha lido a Bíblia para dela falar dessa forma. Lamentável... Data venia! Ou o ministro desconhece Bíblia ou desconhece a história da ciência. Equívocos assim indicam que é necessário voltar aos bancos de escola.
Existe muito oportunismo, muita injustiça e muita desonestidade na tática de alegar que Galileu - cuja genialidade ainda nos espanta - foi condenado por investir contra verdades bíblicas. Nisso e em outras tantas coisas.
Atualmente, o senso de profundidade vem sendo comprometido por uma cultura midiática, a qual parece expelir da mente das pessoas também os valores históricos. Tudo é superficial, dado o excesso de informação disponível, a qual - pensa-se - deve ser quantitativamente apreciada ao máximo (e tudo vira fast-food!). Como resultado, não são apenas as massas e a imprensa popular que caem erro. Pessoas de elevada cultura - como o ministro Celso de Mello - também cometem deslizes quase que imperdoáveis do ponto de vista humano.
Em que será que as descobertas de Galileu e a Bíblia são incompatíveis? Eu respondo: Em nada!
E não se trata de amortecer os ânimos e ajeitar as coisas para arranjar uma saída diplomática. Nenhuma citação bíblica aparece vilipendiada nos documentos oficias de acusação e abjuração do astrônomo italiano. O que este sábio fez foi desafiar as crenças filosóficas (cosmologias) tradicionais e o pensamento do clero romano, não a Bíblia. Sua grande "heresia" foi desconsiderar que "Roma locuta finita causa est", isto é, "Roma falou, o assunto está encerrado". Atingiu um dogma católico, não uma verdade bíblica.
Galileu sustentava o sistema já elaborado por Copérnico: o sistema heliocêntrico. Com ele, a compreensão geocêntrica do universo, vigente desde Ptolomeu e ordenada pela Igreja Católica, perdeu seu prestígio.
A Igreja Romana (não sei para que finalidade) sempre misturou conceitos seculares com religiosos, deturpando a mensagem que há no Volume Sagrado. Por muito tempo, esta instituição tentou casar ensinamentos humanos, principalmente aristotélicos, com a Bíblia, algo impossível de se fazer sem que alguns "ajustes" fossem feitos. E os ajustes incidiram exclusivamente sobre o conteúdo da Bíblia, não do ensino secular. Como resultado, tivemos ocultação da verdadeira verdade, que era apresentada ao público de maneira deformada. Não impressiona que os escritos sagrados fossem de acesso restrito aos clérigos católicos durante a Idade Média.
Felizmente, Galileu era cristão genuíno e perseguiu a verdade. O astrônomo, religioso que era, em momento nenhum obrou contra as Escrituras. Foi também um dos pais da ciência, fundador do método experimental.Para quem alega que a Bíblia representa a bandeira do atraso, como que um sinal de obtusidade religiosa, sendo retrógrada e obscurantista, existem obstáculos intransponíveis. O maior deles é, com certeza, a falta de consideração aos rigores da crítica , os quais requerem a comprovação de dados. Mas, demais disso, prossigamos:
Para os cristãos, a natureza tem valor. Já os gregos nivelavam o mundo material à desordem e ao mal (lembram-se de Platão?). A cultura bíblica ensina que o mundo físico tem grande valor, pois é a criação de Deus. Além disso, a Bíblia promove a "desdeificação" da natureza, o que é essencial para a ciência. Para muitos povos, a natureza era intocável, objeto de adoração religiosa. Sua análise era, portanto, uma heresia. Mas, em sentido contrário, a Bíblia oferece cabedal que libera o homem desses temores que impediam a investigação da natureza. Não é sem razão que grande parte dos gênios da raça humana eram cristãos, a exemplo de Isaac Newton, notável físico.
As afirmações científicas da Bíblia prevaleceram contra as dos sábios durante longos períodos, até que a ciência terminou por comprovar sua exatidão, inclinando-se à voz dos profetas.A Bíblia ajudou, também, a mudar os conceitos sobre o formato da Terra. Em Isaías 40:22 é dito que "Ele está assentado sobre o globo da Terra". Essa afirmação feita há séculos contradizia a tese de Tales de Mileto, um dos pais do método científico, para quem a Terra era semelhante a um pires. Depois da Bíblia, Pitágoras foi o primeiro a concordar com a redondeza da Terra. Os profetas da Bíblia - repise-se - chegaram primeiro. Jó 26:7 afirma que "Ele estende o norte sobre o vazio e faz pairar a Terra sobre o nada". Uma correta assertiva, mas conturbadora para os gregos antigos, para quem a Terra era sustentada por Atlas. Outros povos ensinavam que ela repousava sobre animais colossais, como o elefante e a tartaruga. Todavia, o relato bíblico é de que a Terra jaz sobre o vácuo.
Jó 28:25 dá conta de que Deus "regulou o peso do vento". São ditos de mais de 3 mil anos antes de Platão. Ao concluir as exaustivas experiências de Galileu, Evangelista Torricelli comprovou a existência de pressão atmosférica, isto é, o peso do ar.
Eclesiastes 1:7 diz que "todos os rios correm para o mar, e o mar não se enche; ao lugar para onde correm os rios, para lá tornam eles a correr. O texto indica que o "mar não se enche" porque as águas despejadas nele pelos rios saem dele e retornam em um ciclo bem calibrado. Para nós, hoje, trata-se de uma obviedade. Entretanto, até a Renascença, porém, acreditava-se que o mar não se enchia porque a Terra era plana e pelas suas bordas laterais despencava no espaço igual volume da água que vinha com as precipitações (chuvas, orvalho etc.). Crendo nisso, navegadores temiam as longas viagens. Tivessem atentado para as Escrituras e não cairiam em vexame.
Em Jó 26: 13 e 14, lê-se que "pelo Seu sopro aclara os céus ... eis que isto são apenas as orlas de seus caminhos". Divergindo da Bíblia, ou errando na interpretação, sábios e teólogos, inclusive os detratores de Galileu, diziam que a Terra era um dos limites das coisas criadas, que nosso planeta era, praticamente, todo o universo, ao lado de algumas poucas regiões celestiais. No entanto, a Bíblia já indicava, ou seja, já dava mostras de que o planeta Terra, o sistema solar e tudo que podemos ver, não são mais do que as margens dos caminhos da criação de Deus, só uma pequena amostra da vastidão que hoje se pode notar. E o que hoje contemplamos não dá conta da grandeza das obras das mãos de Deus!Se a Igreja Católica atentasse verdadeiramente para o Livro Inspirado de Deus em sua totalidade, não teria sido tão injusta com Galileu, nem o ministro do STF teria sido tão rude para com a Bíblia. Infelizmente, o engano está presente nos lábios de quem não conhece a verdade bíblica. Se o erro cometido é escusável ou inescusável, não se sabe. Se, apesar dos desacertos, há sinceridade nas palavras ditas pela Igreja Romana ou pelo STF, então ambos estão sinceramente errados. A instituição católica já se retratou inúmeras vezes (e ainda irá mudar seus posicionamentos em muitas ocasiões, ao sabor das circunstâncias, pois não toma postura firme e inarredável ao lado da Bíblia - aliás, isso está profetizado). Será que o STF irá corrigir seu engano também? Ambos são instituições humanas: dessa forma, espera-se que sim.
É pacífico que a Bíblia trata de botânica, zoologia, ética, biologia, etnologia, filologia, geografia, astronomia, filosofia, medicina, sem contar outras afirmações de aplicação contemporânea. Tudo em consonância com os resultados das pesquisas já feitas nessas áreas. Aliás, a idéia de que a Terra possui bilhões de anos é extremamente controversa, porém divulgada com o maior alarde como se fosse uma verdade cientificamente comprovada e imutável, não como uma mera teoria (idéia) corroborada por apenas pouquíssimos indícios, o que é realmente.
Embora não seja essencialmente um livro de ciência, sempre que aborda assuntos científicos, a Bíblia é absolutamente exata. Caso alguém consultasse as declarações dos antigos gregos e romanos acerca dos corpos celestes, encontraria coisas absurdas e ridículas. Examinando a Bíblia, porém, verifica-se que ela não contém expressão alguma que seja destituída de exatidão.
Ela não tem a pretensão de ser um manual eterno da ciência, e sim da consciência. Sua grande contribuição não é a revelação de como funciona o universo e a realidade, mas de como se dá a interação entre criatura e Criador. Seu tema maior é a revelação de que o universo tem uma identidade, que pressupõe uma intencionalidade divina. É de caráter existencial, não fenomenológico. Não trata de descrever o mundo em si, senão o mundo em suas relações com Deus.
(Texto adaptado do artigo de Marcos O. Schultz, A Bíblia e a Ciência, divulgado no Jornal Órion de agosto de 2009)
22.8.09
Júlio César
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